A CASA SEGUNDO OS CONCEITOS DE HERTZBERGER
Partindo do quarto como objeto de análise, o primeiro aspecto que me chama atenção é a relação público-privado. Ele é o lugar da casa que mais explicitamente compila minhas características, sendo o espaço destinado a meu uso exclusivo e consequentemente privado. Porém, o obstáculo para uma maior privacidade está no fato de que a grande e única janela está interligada à varanda a ao espaço externo (que são áreas comuns), tornando aberta a interação das pessoas do lado de fora mesmo com a porta fechada, tornando-a também a conexão com o mundo exterior mesmo estando do lado de dentro.
Outro aspecto se refere à questão do espaço: é pequeno demais para que seu uso seja expandido, o que faz com que seja extremamente funcional. Um exemplo disso é a mudança que foi feita para adicionar uma escrivaninha, foi necessário retirar a cama (!) pois o local não permitia o uso como dormitório e área de estudos concomitantemente, ressaltando a necessidade de se “deixar espaço”.
Quando criança, tive a oportunidade de ter outro quarto todo rosa, das paredes aos móveis. Entretanto, assim que minha irmã se mudou quis ir para o quarto que era dela e hoje utilizo. Diferentemente do outro, as paredes e os móveis eram brancos e existia uma grande estante, isso fez com que o espaço tivesse uma forma mais convidativa, que sugeria que objetos pudessem ser colocados e coisas coladas nas paredes, adaptando-se ao usuário do ambiente. Observa-se assim o contraste entre as possibilidades de exploração em um ambiente já definido e outro aberto a possibilidades.
A casa em si não foi projetada por um arquiteto e isso compreendeu algumas adaptações da construção, como no caso da copa e cozinha que ficaram extremamente pequenas e se tornaram quartos no andamento da obra. Porém, isso não impediu que várias de suas características também pudessem ser analisadas do ponto de vista do livro do Hertzberger.
O corredor serve como uma rua e uma espécie de intervalo entre áreas coletivas e privadas (as primeiras com acessos mais abertos e as segundas com portas grossas de madeira), sendo uma zona de transição e também ligação dos diferentes ambientes. Além disso, alguns cômodos mais amplos como um quarto de casal, a sala e a copa permitem que os móveis possam ocupar diferentes posições, alterando toda a dinâmica do lugar sem alterar sua estrutura. Essa polivalência possibilita que pequenas alterações proporcionem uma grande sensação de mudança.
A varanda que circunda toda a casa e as janelas espaçosas são estruturas que permitem trazer o mundo exterior para dentro, contudo, como o terreno é dividido por cercas, da mesma forma como promovem maior contato entre os vizinhos, também são uma brecha para penetrar a vida particular do outro, dificultando em parte a reclusão total.
As muretas da área de serviço são um belo exemplo de polivalência e o espaço habitável entre as coisas, pois além de servir como demarcação e diferenciação territorial, também se torna assento em diversas ocasiões, do ócio a comemorações de aniversário. Outro ponto interessante é sobre a distância da casa até a rua e o portão de grade, que faz com que a entrada seja ao mesmo tempo continuidade da rua e limite do ambiente familiar.
Em se tratando da própria rua, ainda que o espaço predominante seja o asfalto, os encontros casuais de moradores que se deslocam a pé são recorrentes, porém os encontros premeditados ou mesmo as paradas que poderiam acontecer na praça que existe são um entrave devido à precariedade do espaço que só aumenta ao longo do tempo. A praça como um espaço público construído pela prefeitura sem nenhuma participação da população se tornou tão de todo mundo que não é de ninguém. A falta de incentivos para a possibilidade de colaboração dos moradores os torna alheios e inertes tanto a contribuições, quanto à manutenção do lugar, tornando um local que poderia incitar o convívio social de forma saudável em um objeto na paisagem.


Mariana - Nota A.
ResponderExcluirDemostra ter lido o livro além de que aborda muito bem diversos conceitos importantes de forma detalhada em sua análise. Traz imagens que ajudam a obter uma ampla compreensão do que foi escrito, além de que problematiza o espaço de forma inovadora, sob uma nova ótica de interpretações, apontando carências destes, justificando com as ideias do livro. Desse modo, apresenta uma análise abrangente, que envolve não apenas a própria residência, como também a vizinhanca de forma bem aprofundada e completa.
Avaliação P2P, feita em grupo por Filip, Racine e Will.